Andrea Campos

Por Luciana Benatti*

Com uma prática que alia sensibilidade e conhecimento das evidências científicas, a obstetra e ginecologista Andrea Campos apoia mulheres que querem vivenciar de forma plena o nascimento de seus filhos.

Se o nascimento de um filho costuma ser lembrado como um dos momentos mais importantes da vida, para muitas mulheres o parto é um acontecimento imperdível. Numa cultura como a nossa, em que o medo do parto é disseminado, e a cesárea, vendida como solução, a busca por uma experiência plena de sentido para o nascimento de um filho requer muitas decisões.

Por entender a gravidez e o parto como processos fisiológicos, que, na maioria dos casos, transcorrem normalmente, a obstetra Andrea Campos se coloca ao lado da mulher nessa trajetória, pronta para apoiá-la na construção de sua história de gravidez e parto.

Mais do que uma rotina de consultas e exames para afastar riscos, as consultas do pré-natal são uma oportunidade de ajudar a mulher a desconstruir o medo do parto e a fazer escolhas informadas, ou seja, baseadas no melhor conhecimento científico disponível. Eventuais intervenções serão feitas quando necessário. Com critério e com o consentimento da mulher.

Durante o pré-natal, o caminho de cada mulher – ou cada casal – até o parto desejado será traçado conjuntamente, mês a mês, em longas conversas. Não por acaso, a disposição dos móveis no consultório lembra muito a de uma sala de estar, favorecendo o encontro.

Com essa abordagem, reforçada pelos princípios da medicina antroposófica, Andrea mantém um alto índice de partos normais, com cerca de 14% de cesáreas, índice que está dentro do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Mais da metade das gestantes dispensam o uso de analgesia. Métodos não farmacológicos de alívio da dor, como a banheira de água quente e o apoio de uma doula, são recursos incentivados pela médica. Para aquelas que precisam, ela trabalha em equipe com anestesistas especializados em parto normal, que recorrem a uma técnica capaz de aliviar a dor sem tirar os movimentos. A parturiente consegue se movimentar normalmente, mesmo anestesiada.

Trajetória Profissional

Nascida em Santos, SP, e criada em Jacutinga, no sul de Minas, filha de um casal de fazendeiros, Andrea cresceu em contato com a natureza. Por sua proximidade com os animais durante a infância e a juventude, chegou a prestar vestibular para veterinária antes de se decidir pela medicina. Interessada em obstetrícia desde o segundo ano da faculdade de medicina na Universidade de Mogi das Cruzes, começou a ter contato com a prática do parto normal ainda estudante, durante um estágio no Hospital Escola de Vila Nova Cachoeirinha.

Depois de se formar, em 2001, fez dois anos de residência médica em ginecologia e obstetrícia no Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros. E, embora a essa altura já tivesse certeza de que gostava mesmo era de atender partos, cursou o terceiro ano opcional de residência em oncologia pélvica e mastologia no hospital Pérola Byington.

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Convidada por Simone Diniz, médica e professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, começou a atender no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, ONG voltada à saúde da mulher, onde permaneceu durante quatro anos. Lá conheceu as então doulas e hoje obstetrizes Ana Cristina Duarte e Cristina Balzano, passando a atender também no Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), do qual Ana Cris é fundadora. Foi o início de uma parceria que dura até hoje: as duas fazem parte do time de obstetrizes que atendem com Andrea.

Desde 2004, quando iniciou o atendimento em consultório, Andrea viu a procura por seu trabalho crescer, junto com a disseminação do movimento pelo parto humanizado. Em 2015, ultrapassou a marca de mil partos atendidos. Esse número refere-se apenas às mulheres que acompanhou em consultório, excluindo os incontáveis nascimentos que assistiu em plantões. Vem da experiência em hospitais públicos boa parte de sua habilidade para atuar em casos considerados mais difíceis. “No Pedreira, atendi muitas primigestas (grávidas do primeiro filho), que chegavam ao hospital no período expulsivo do parto, com o bebê pélvico (sentado), e acabavam tendo parto normal”, cita como exemplo.

O convite para trabalhar no Hospital Pedreira (onde atendeu durante cinco anos) veio do obstetra Jorge Kuhn, um dos principais nomes do parto humanizado no Brasil, na época coordenador daquele hospital, com quem Andrea já havia trabalhado no hospital Leonor Mendes de Barros. Com ele, Andrea aprendeu muito. Um exemplo é a versão cefálica externa, manobra usada para virar de cabeça para baixo o bebê que permanece sentado próximo à data provável do parto. Conhecida e praticada pelos obstetras mais antigos, essa técnica foi se perdendo com a popularização do parto cirúrgico no Brasil. O trabalho de Kuhn sempre foi uma inspiração para Andrea. Com o passar dos anos, ficaram amigos e se tornaram grandes parceiros na obstetrícia.

Em 2008 iniciou seus estudos em medicina antroposófica, tendo realizado o X Curso Básico de Medicina Antroposófica da Associação Brasileira de Medicina Antroposófica, o curso de Saúde da Mulher sob a visão da Medicina Antroposófica da Unifesp e o curso de Farmácia Antroposófica na Farmantropo.

Em sociedade com o casal Jorge Kuhn e Esmerinda Cavalcante, a Mema, também ginecologista e obstetra, e com a enfermeira obstetra Marcia Koiffman, criou em 2010 a Casa Moara, no Brooklin, em São Paulo. Trata-se de um espaço que reúne médicos, obstetrizes e outros profissionais que atendem gestantes, bebês e famílias e que compartilham a visão humanizada do cuidado em saúde. As obstetrizes Natália Rea e Priscila Raspantini uniram-se ao grupo inicial e hoje são parceiras de Andrea numa equipe multiprofissional de assistência ao parto.

Em 2018 concluiu a pós-graduação em Bases da Medicina Integrativa pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.

“No Brasil, como muita gente faz cesárea, a mulher que opta pelo parto normal muitas vezes acaba se sentindo como um peixe fora dágua. Para se fortalecer, precisa buscar informação e encontrar quem pense como ela. E ver que esse desejo na verdade é o caminho mais seguro e que trará uma experiência transformadora

É isso, acima de tudo, o que as mulheres encontram na Casa Moara e também na Lumos Cultural e Casa Curumim, onde ela também atende.

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Qualidade de vida

Nem é preciso dizer o quanto Andrea ama o que faz. Mas vale registrar como, apesar de trabalhar com algo tão imprevisível – partos não têm hora marcada para começar, nem para terminar – ela consegue preservar seu espaço pessoal e ter uma boa qualidade de vida. Essa conquista é atribuída por ela ao fato de trabalhar em equipe: com outros médicos, mas principalmente com as obstetrizes.

É conhecido o seu gosto por viagens, em geral associadas a outras duas paixões: andar de bicicleta e ter contato com a natureza. Não raro, ela opta por viagens em que consegue conciliar os dois. Em São Paulo, onde mora e trabalha, gosta de ir ao cinema, praticar Yoga, andar de bicicleta, trabalhar com cerâmica e passear pelo parque do Ibirapuera com seus cachorros Otto e Guinli.

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*Luciana Benatti, jornalista e editora, é autora do livro Parto com Amor (Panda Books).

Fotos parto: Marcelo Min | Parto com Amor
Fotos: Arquivo pessoal Andrea Campos

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